Resenha: “Songs of Innocence” por Suderland Guimarães
Resenha: “Songs of Innocence” por Suderland Guimarães
Resenha: “Songs of Innocence” por Suderland Guimarães
26 de setembro de 2014
Duff

Olá, caros amantes da boa música.

Como todo bom admirador do quarteto irlandês mais famoso do planeta, a banda U2, eu estive me deleitando esses dias no mais novo trabalho deles. E após várias audições só me resta dizer que valeu a pena esperar 5 anos para ouvir essa bela obra musical: Songs of Innocence. Que, para mim, está muito próximo do ótimo álbum All That You Can't Leave Behind. Songs of Innocence é, de certa forma, conceitual, por se propor, segundo o próprio Bono, a revisitar o passado da banda e mostrar, através das músicas, as relações familiares, os amores, as bandas, as ideias, as ruas e os amigos que marcaram a juventude desses quatro irlandeses que se especializaram em ser grandiosos no que eles se propõem a fazer: músicas e shows. Porque, ainda que alguém não simpatize com o U2, ninguém pode negar que eles fazem músicas de qualidade e shows grandiosos.

Por outro lado, esse álbum é menos experimental, possui uma produção mais conservadora, a pedra foi bem lapidada, as arestas foram aparadas, todas as canções foram bem acabadas, o que deu bastante consistência ao álbum como um todo. Vemos nele a banda buscando variações musicais e fazendo canções com variados ritmos e estilos, mas não vemos canções que fogem do padrão pop, como a canção quase falada, "Cedars Of Lebanon", do álbum No Line On the Horizon. Em Songs of Innocence eles passeiam pelo glam rock, pelo punk, pelo ska e pelo rock contemporâneo. E apesar de todas essas mudanças, o som clássico do U2 continua lá na essência das canções.

Desde o lançamento do single "Invisible", no início desse ano, que a própria banda disse que buscou inspiração para esse novo álbum nas músicas que eles ouviam nos anos 70, de punk rock à Bowie, Ramones, Kraftwerk e Joy Division. "Nós queríamos fazer um álbum bem pessoal," Bono disse à Gus Wenner, da Rolling Stone, um dia antes da conferência em uma entrevista exclusiva. "Tentamos descobrir porque nós queríamos estar em uma banda, nossa família. O álbum inteiro é sobre as nossas primeiras jornadas - primeiro jornadas geográficas, espirituais, sexuais. E isso foi difícil. Mas nós conseguimos." E, de certa forma, essa busca por inspiração no passado trouxe uma energia nova para a banda, que se refletiu em músicas que transpiram um certo ar inovador e ousado, típico de jovens inquietos e ansiosos por alcançar novos horizontes, por ultrapassar barreiras. Contudo, não espere encontrar nesse álbum a mesma sonoridade pós-punk do início da carreira do U2. Estamos, apenas, diante de 4 homens que buscaram inspiração para esse álbum no passado, na juventude deles.

A primeira música, "The Miracle", homenageia uma das fontes de inspiração do U2, Joey Ramone, um dos ícones do punk rock. Punk rock cuja lema era "três acordes e uma verdade". E é isso que o Bono relata nessa canção: o quanto Joey o ajudou a encontrar seu próprio caminho. Ele sabia que não tinha uma voz potente, mas se ele cantasse verdades vindas do seu coração, então suas músicas ganharia uma força que os fariam ir além do óbvio, do imaginável. E foi o que aconteceu. Essa música é dedicada ao Joey Ramone, mas sonoridade parece inspirada no Glam Rock. Possui uma bateria forte, quase militar, uma guitarra bem presente e forte. Nessa letra Bono mostrou o quanto ele era inseguro por ter uma "voz feminina", mas encontrou inspiração para lutar por seu sonho de ser cantor ao ver o exemplo de Joey Ramone, que também possuía uma "voz feminina", mas cantava com verdade e amor. O cerne dessa canção é o milagre da auto-descoberta, de achar o seu próprio caminho nesse mundo.

A segunda música é "Every Breaking Wave", que nasceu para ser um hit, nasceu para ser grande. Ela possui uma intro que lembra "With Or Without You", os clássicos riffs do Edge, que, somado à potente e límpida voz do Bono nessa canção, criam um clima epopeico para "Every Breaking Wave", assim como ocorreu com todos os clássicos do U2. Ela se inicia lentamente e gradualmente constroe um clímax com paixão e intensidade. Steve Lillywhite disse numa entrevista que "a canção utiliza o movimento do oceano como uma metáfora para a luta humana". Confesso que fico impressionado com a forma que o Edge consegue transmitir emoções com sua guitarra. Nessa canção, carregada de referências marítimas, a guitarra do Edge e o canto do Bono começam com pequenas e suaves marolas sonoras, mas crescem à ponto de provocarem uma grande tsunami de emoções. O convite é para fechar os olhos e curtir essas boas ondas sonoras.

A terceira música é "California", que foge, geograficamente, das temáticas das músicas anteriores, ambientadas na Irlanda. Nessa música viajamos até a Califórnia para o Bono expor um coração com angustias existenciais e para homenagear o Beach Boys, na pessoa do Brian Wilson, que foi citado no encarte desse álbum. Em sintonia com o tema nostálgico do disco, Bono parece estar lembrando das experiências de quando eles visitaram os EUA pela primeira vez. Nessa letra o Bono se viu chorando como um bebê diante do espelho, mas ainda assim não desistiu, porque ele fazia o que amava. E apesar de todas os dilemas "Tudo o que ele sabia e precisava saber é que não há fim para o amor". Quanto à sonoridade, ela se aproxima muito do bom e velho rock. É uma para levantar o astral, para ouvir numa auto-estrada. Essa foi feita para tocar em estádios com seu refrão fácil e pegada à la Beach Boys para fazer o estádio cantar alto e uníssono. Ela começa com uns teclados e em seguida entra os repiques da guitarra do Edge para acompanhar a voz límpida e forte do Bono. Aliás, faço um parêntese aqui para destacar o quanto a voz do Bono está virtuosa e potente nesse álbum, indo dos falsetes até os graves de um tenor.

A quarta música, "Song for Someone", é uma daquelas baladas do U2 onde o Bono escreve para a esposa, seu primeiro grande amor - de quem ele roubou o primeiro beijo -, e termina por misturar com temas espirituais no final da canção. Assim como outras baladas clássicas do U2, essa canção começa lenta, com voz e violão, e vai crescendo até explodir num refrão onde o Bono solta a voz e o Edge nos presenteia com lindos e cortantes riffs, que nos levam a um êxtase de emoções, para, logo em seguida, desacelerar e o Bono quase sussurrar para seu amor suas confissões mais íntimas. Uma das músicas mais belas desse álbum, na minha opinião. Possui uma beleza suave e intimista.

A quinta canção, "Iris", trata-se de um tema recorrente em toda a carreira do U2: a mãe do Bono. Ele a perdeu quando tinha apenas 14 anos. Esse fato moldou fortemente a sua personalidade por causa do trauma que provocou, pois, segundo o Bono, ela era o pilar principal da família Hewson. E, quando ela morreu, tudo que ele conhecia por lar, desmoronou. Foi quando ele encontrou, nos seus amigos de rua e num grupo de estudo bíblico, o acolhimento fraternal que ele tinha em casa (esse é o tema da oitava faixa desse álbum, "Cedarwood Road"). A música "Iris" foi escrita na perspectiva de um homem de 50 anos olhando para trás, mas o sentimento ainda é o mesmo da terna idade, quando ele canta e se declara para sua saudosa mãe: "Abrace-me forte e não me deixe ir". O curioso é que nessa canção o Bono cita os olhos da mãe na letra e ele também fez isso no primeiro álbum do U2, na música "I Will Follow", que também refere-se à sua mãe. Nessa canção o Adam e o Larry nos mostram o quanto a cozinha do U2 é eficiente. O baixo do Adam está tão marcante que me lembra o baixo do Peter Hook, com todo respeito ao mestre. A bateria está econômica, mas eficiente. Essa canção também traz os vocais do Chris Martin (vocalista do Coldplay) ao fundo, fazendo coro. E o Edge, como sempre, consegue imprimir várias texturas à música com sua virtuosa guitarra. Um verdeiro alquimista dos sons. Um parceiro ideal para dar suporte à bela e virtuosa voz do Bono.

A sexta canção chama-se "Volcano". Uma música vibrante, acelerada e com um refrão forte que lembra as modernas canções de indie rock. É o tipo de música para se ouvir num carro curtindo uma estrada, que permita altas velocidades, de preferência. Começa com um baixo acentuado e caminha para um refrão que expressa bem a pressão que o jovem Bono sentia diante das dificuldades impostas pela vida (morte da mãe, incertezas profissionais, relação complicada com o pai, etc). E aqui, mais uma vez, o Adam se destaca com seu baixo e o Larry na bateria para nos conduzir a mais uma canção com pegado bem rock desse álbum. O Bono cantando com a força de um jovem e o Edge tocando sua guitarra de forma repicada dão à essa bela canção uma levada agressiva e dançante. Um rock descontraído para aliviar as tensões que carregamos dentro de nós.

A sétima música é "Raised By Wolves", que segue a tradição das músicas políticas do U2. Essa relata um incidente terrorista em Dublin no qual um carro bomba explodiu e o Bono escapou por pouco da morte. "A bomba destruiu a rua. Escapei, mas um dos meus colegas estava na esquina com seu pai, e foi uma coisa muito difícil para ele testemunhar e não tenho certeza se ele realmente superou isso", disse Bono. Na sonoridade, essa canção começa com uma guitarra repicada, acelerada que transmite a ideia de uma atmosfera tensa. Tensão que culmina na explosão da voz do Bono e da guitarra do Edge no refrão.

A oitava faixa é "Cedarwood Road", que é o nome da rua onde o Bono cresceu em Dublin. Mais uma música com referência ao passado. Aqui Bono relata imagens e situações vividas na sua adolescência. Bono relembra que "Era uma zona de guerra na minha adolescência. Eu ainda estou parado naquelas ruas". Tem referências aos seus amigos, às casas, às brigas e às bíblias usadas pelo grupo de estudo bíblico que o Bono participou. Os amigos e esse grupo de estudo trouxe alento para o jovem Bono, que perdeu traumaticamente a mãe aos quatorze anos. A música onde o Edge toca uma das mais belas introduções do álbum. Começa com um riff belo e marcante. Em seguida inicia um solo de guitarra que lembra os clássicos solos do Jimmy Page. O início dessa canção é tão belo que a impressão que fiquei foi que a sonoridade as estrofes ficou aquém da introdução e do refrão.

A nona canção, "Sleep Like a Baby Tonight", é a faixa mais sombria e misteriosa do álbum. Contrasta a imagem de ir dormir como um bebê e de amanhecer com um suicídio. Os lindos riffs de guitarra cortantes que o Edge toca contrapõe o teclado no estilo de canção de ninar. Se você gosta do som do U2 quando eles vão para um lugar escuro. A sonoridade dessa faixa parece saída das sessões do Zooropa ou do Pop. O teclado na introdução me lembra os sintetizadores da banda Kraftwerk.

A décima faixa, "This Is Where You Can Reach Me Now", é inspirada por um concerto de The Clash, que é conhecido por seu engajamento político. "Depois que nós vimos o Clash, ele serviu como modelo para o U2", disse Bono. E disso que trata a letra dessa música. Talvez daí veio a inspiração para os clássicos do U2 com mensagens políticas, como "Sunday Bloody Sunday" e "Bullet The Blue Sky". A sonoridade dessa música com certeza é um das mais diferentes desse álbum, lembra um pouco o ritmo ska.

A décima primeira faixa, "The Troubles", é uma música bem intimista que começa com a doce e linda voz de Lykke Li. "Você acha que é mais fácil conhecer os seus próprios truques? Bem, é a coisa mais difícil que você nunca vai fazer", Bono canta, mostrando o quão profundo é nosso ser, o quão cheio de sombras nós somos, mesmo quando achamos que nos conhecemos. A música é cadenciada para deixar esse tom intimista cantado pelo Bono, que é quase uma confissão, mais uma página aberta da alma do Bono. No final a música ganha um pouco de força quando Bono cita Deus: "Deus, eu sei que não é fácil. Pegar a forma da dor de outra pessoa. Deus, agora você pode me ver. Eu estou nu e não estou com medo. Meu corpo está com medo e eu não estou com vergonha".

É isso, caros leitores, obrigado a você que teve a paciência de ler até o fim e em breve postarei a interpretação de "Every Breaking Wave".

Suderland Guimarães (@Suderland)

Notícias relacionadas
SIGA O U2BR NAS REDES SOCIAIS